Crítica - A Cor do Dinheiro (The Collor of Money)

Ainda que o EddiePaul Newman (1925 - 2008) — vista uma aura costurada pelo próprio Martin Scorsese, A Cor do Dinheiro (1986) se torna mais um grande exemplo do domínio total de Scorsese com sua mise-en-scène, agora reestilizada. Algo que não era tão evidente assim na sua fase experimental e ético-existencial, marcada pela melancolia interna, problemas envolvendo questões religiosas e seus dogmas, uma montagem ansiosa que reflete um desejo latente de pertencer a algo maior.

Mas, mesmo assim, ainda consigo sentir algumas nuances marcadas por uma fase de experimentos — especificamente em ser o mais central possível em seus personagens —, mas agora tudo bem mais estável, deixando de lado uma decupagem tensa (que vinha desse anseio ao encaixe social e religioso). Só que, agora, as reações causadas pelas ações estão ligadas ao filosófico. Quer dizer, se antes seus personagens estavam em uma constante busca pela aprovação, aqui, eles abraçam o seu fracasso.

Essa fase me fez remeter a ideias de Guy Debord (A Sociedade do Espetáculo), que, ao ser estudada, consegue se adaptar muito bem com a subversão que o cineasta faz com suas figuras — castrando o arquétipo do homem que é —, uma alteração que muda bruscamente certos pressupostos pejorativos que o seu cinema estava sendo vítima. Isso muda totalmente com Depois de Horas (1985), onde a desgraça alheia é plugada à própria estética do diretor, ou seja, o espectador se torna cúmplice — não de um crime, pois não sabemos quem é o criminoso —, somos comparsa da construção cênica que o onírico constrói.

Na cena em que Paul Hackett — o protagonista — entra no banheiro, tudo se torna muito revelador, mostrando, por meio de um desenho na parede de um tubarão dilacerando o pênis de um homem (claro, um homem imóvel), a síntese de um esquecimento temporário dos arquétipos clássicos do diretor. Depois de Horas sempre está debochando do papel do homem perante a sociedade e, ao que tudo indica, esse sarcasmo não foi deixado para trás. Pois, aqui, o deboche está na figura de Cruise — ele serve como catalisador de um narcisismo ferido que luta contra a própria sombra.

Pode soar meio doentio, mas é arrebatador o que Scorsese faz com a construção dramática, sendo assim, um reflexo de si próprio. Ou seja, em A Cor do Dinheiro, os personagens são apenas alusões da própria estética que ele repaginou. O cineasta, nas entrelinhas, se torna bem mais oportunista do que seus próprios personagens. Você acha que um close-up que fecha no rosto de Tom Cruise faz parte do formalismo? — eu acho que não.

Os personagens, principalmente o Eddie, têm como força motriz a sua ligação, sua sede pelo dinheiro fácil. Só que isso também se torna outro pretexto cinematográfico para que, por meio dessa ânsia, surja um meio que possibilite o limite que a arte de atuar pode alcançar. 

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